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O que verdadeiramente constitui espiritualidade? O vulgo conceito sobre uma pessoa espiritualizada remete imagens de ermitões, monges ou de pessoas que se entregam a penitência, orações e meditações. Uma parcela de pessoas que buscam a Fraternidade Rosacruz, no entanto, em seu anseio por maiores explicações sobre esta escola de pensamento, muitas vezes revelam ter uma cultura extensa sobre diversas literaturas espiritualistas e alguns, muitas vezes, chegam a relatar já terem vivenciado situações místicas ou sensações espirituais. Estes, mesmo mostrando um anseio firme e sincero por conhecimento espiritual, também apresentam um traço importante: aquele relacionado a excessiva realização de leituras para encontrarem espiritualidade.

Apesar de obscuros para muitas dessas pessoas, a razão pela qual realizam tanta leitura normalmente está fundamentada em um dos dois motivos a seguir: (1) a busca pela sensação de estarem em contato com algo novo. Nestes casos, o maior reforço que as mantém na escola é o quanto tal novidade lhes propicia sensações novas e boas; (2) aqueles mais interessados em pensamentos e em ideais, e enquanto a Filosofia estiver reforçando essa necessidade pessoal, mais permanecerão no estudo. Em casos extremos, alguns acabam por descuidar de seus deveres familiares, sociais e de trabalho, tendo a busca pela vida superior e espiritual como justificativa.

                Muitos, apesar de julgarem-se espiritualizados, vivem irritados e nervosos, com dificuldades em qualquer coisa de ordem prática e de relacionamentos interpessoais. Sentem-se bem apenas em seu mundo de idéias em que nenhuma discórdia prática pode lhe ocorrer. O famoso exemplo abaixo constitui exatamente esse aborrecimento:

“Um asceta estava meditando em uma caverna. De repente, um rato entrou e deu uma mordida em sua sandália. Aborrecido, o asceta abriu os olhos e indagou:

 Por que você está perturbando a minha meditação?

 Estou com fome – guinchou o rato.

 Vai embora, rato louco – pregou o asceta. – estou procurando a união com Deus. Como se atreve a me perturbar?

 Como espera tornar-se um com Deus – perguntou o rato – se nem mesmo consegue tornar-se um comigo?”.

Ora, é evidente que o que determina se uma pessoa é espiritualizada não pode estar relacionada à quantidade de livros que lê ou conhece, nem ao tempo que consegue manter-se concentrada ou em meditação. Nem pode a espiritualidade estar relacionada com as experiências místicas que alguma vez uma pessoa experimentou. Espiritualidade não consiste de momentos intensos e de duração curta, mas a constância de consciência do quanto se está interligado com tudo e com todos, e esta noção move a pessoa para prática no mundo. Cada ação é ditada por uma percepção das coisas espirituais e isso ocorre o tempo todo. Ela é atingida com muito esforço e trabalho consciente constante.

Interessante é notar que exatamente aquilo que irritou o asceta na historinha acima reproduzida, era a tão almejada oportunidade de união com Deus. Então, como deve ser a vida de alguém que busca a espiritualidade? De dor? De fazer aquilo que não gosta? Estaria a espiritualidade naquilo que mais detestamos fazer? Além de mostrar para a humanidade os reais valores e o estilo de vida que ela deve seguir para se libertar do cativeiro das doenças e da morte, Cristo trouxe ao Mundo um novo impulso espiritual que a cada ano é renovado por ocasião do Natal. Podemos responder a esse impulso em maior ou menor grau, dependendo da quantidade de espiritualidade que praticamos durante todo o ano. As perguntas que naturalmente podemos fazer a nós mesmos e que constituem as medidas reais que revelam se estamos ou não praticando espiritualidade são: “Considerando todo o conhecimento que você adquiriu, que formaram as luzes que lhe permitiram criar novos olhos para enxergar melhor a vida, você foi capaz de utilizar estas novas luzes para auxiliar alguém? Foi capaz de melhor utilizar seus recursos e conhecimentos para sacrificar seu eu inferior e direcionar seus Corpos para realizar a vontade de seu Eu superior?” Ao invés de ficar horas e horas examinando novas teorias que alimentam sua própria satisfação, conseguiu incorporar com a prática alguma coisa do que aprendeu?

O mundo está cheio de pessoas intolerantes às diferenças e as imitações alheias. De pessoas com suas opiniões severas sobre tudo aquilo que foge de seus ideais, e está carente de pessoas que entendem que as limitações são na verdade, oportunidades de trabalho espiritual e que a busca por solucioná-las constitui a oportunidade de se espiritualizar e se unificar com Deus. Por isso há tantas coisas erradas no mundo, tantas limitações na ciência e tantos defeitos nos outros. É sabendo trabalhar na prática com tudo isso que poderemos atingir a união com Cristo. O grande desafio não é fazer o que deve ser feito, mas superar o vício do pensar, do refletir em excesso, do buscar conhecimentos em livros, de renunciar nossos valores e critérios pessoais para dar um exemplo verdadeiro de vida.

O egoísmo disfarçado de espiritualidade é uma armadilha difícil de ser percebida pelos aspirantes. Todo o trabalho, mesmo que espiritualmente justificável que aponta para nós mesmos, é uma armadilha. O poder espiritual é conquistado pelo serviço amoroso e desinteressado para com os outros. Esse é o caminho mais curto, mais seguro e mais agradável que conduz a Deus. Isso é espiritualidade, nada mais.

“Que as rosas floresçam em vossa cruz”

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