A Dor e a Beleza de Crescer

Sem categoria | 07/05/2020

 

Abandonar pai e mãe. O que será que Cristo quis dizer com isso quando em Marcos, capítulo 10, proferiu:

7 Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e os dois serão uma só carne.” ?

Quando pensamos na Fraternidade, sempre nos é incentivado que, como nas Escolas antigas, tenhamos um estudo o mais holístico possível, especialmente envolvendo certas áreas, ainda que, lembremos, Intelecto não seja necessariamente condição para a Graça (como fórmula, e, portanto, não sendo uma forma rígida o ‘precisar ter Intelecto para viver a Graça’). Ainda assim, sabemos que estudar e buscar lapidar nosso Mercúrio é um precioso e necessário Ato.

Assim sendo, se conhecemos o campo da Psique um pouco mais a fundo, em algum momento nos depararemos com as perdas, perdas essas que portam a possibilidade de muitos atritos, os quais são necessários para a construção do nosso Corpo-Alma, tão ansiado.

Há um livro (que deixo como dica de leitura, não sendo ele estritamente teórico, mas teoricamente embasado) chamado Perdas Necessárias (da autora Judith Viorst) que nos conta sobre algumas teorias que falam das principais perdas que sofremos na vida, a começar na infância.

A perda da mãe é o que abre o livro, trazendo luz ao fato de que, sermos abandonados pelos pais, especialmente pela mãe, logo após nascer, gera consequências quase irreparáveis. Ela várias vezes afirma o quão grande é o estrago de sermos e/ou nos sentirmos abandonados. Em um momento ela cita que “o amor pela mãe começa com o que Anna Freud chama de “amor estomacal”. Ora, sabemos, por nossos estudos astrológicos, que a Lua (aquela que representa a nossa mãe no mapa) é a responsável pela saúde do nosso processo digestivo, ou seja, nosso estômago realmente tem ligação direta com o amor maternal.

Sabemos também, por palestras e estudos em particular, que conseguirmos “superar”, elevar, oitavar nossa relação com a Lua enquanto luminar é extremamente necessário, bem como necessário e urgente, verticalizarmos toda a coluna feminina em nós e, consequentemente, no zodíaco (sendo os três eixos femininos: Touro-Escorpião, Câncer-Capricórnio e Virgem-Peixes).

Se lermos e buscarmos compreender que, por mais ideal que o processo de maternidade e paternidade seja, ele ainda assim não será Perfeito, observamos que, o simples ato da nossa mãe sair do cômodo em que estamos quando somos pequenos, pode nos fazer sentir um grande abandono (mesmo sem estarmos sendo efetivamente abandonados como a palavra ‘abandono’ nos evoca intelectualmente depois que crescemos), gerando terrível medo e ansiedade, podendo levar a crises diversas, e até depressões – seja na infância, ou em qualquer idade ao repetirmos padrões de paixões “do berço” por vivenciarmos algo semelhante (uma situação que nos remeta simbolicamente ao já vivenciado), ainda que com outra roupagem.

Ou seja, o fato de não termos Conhecimento na infância, a nossa Ignorância, faz com que pensemos que estamos sendo abandonados a todo instante. Isso gera várias consequências psicológicas (que podem ser estudadas na leitura indicada, e em outros autores, claro). De toda forma, em algum momento, teremos que sofrer essa perda necessária – teremos, será uma prerrogativa, sermos abandonados e abandonar, em todos os sentidos que essa palavra evoque, pois é assim que crescemos, quando novos.

Sabemos que as crianças herdam o Reino de Céus, então não será nosso dever pensar como vivenciar a perda, como vivenciar o abandono é tão necessário para nosso regresso ao Lar Verdadeiro?

Não será também oportuno meditar sobre como abandonar e ser abandonado pela mãe tem profunda relação com as matérias de que somos temporalmente feitos, sendo possível Ser para-além delas, tornando-nos capazes de fazer, por exemplo, jejuns quando quisermos, ter os desejos sob consciente manejo, atrair ideias elevadas quando convir que a elas modelemos, dando forma a egrégoras, ao invés de egregórios, fazendo com que, com tudo isso e muito mais, aprendamos a sabedoria de abandonar e sermos abandonados pela nossa mãe (a Matéria de todos os mundos) quando assim tiver que ser feito?

Se pensarmos nos estudos da Fraternidade, e mesmo puramente biológicos, sabemos que o ser humano está em sua infância, mal temos corpos bem formados, estamos aprendendo, muitos não conseguiram sequer desenvolver os cinco sentidos desde a época Atlante, que dirá a Mente que já nos foi dada… E assim, vemos como, em relação à criação dos que nos antecedem (em termos espirituais, a 12º Hierarquia Somos, e materiais, responsáveis pelo Éter Químico), somos nada mais que crianças, recém-nascidos, e toda a busca pela Iniciação, pelo Cristo, é justamente nos tornarmos Homens, e depois Filhos do Homem, tal qual um Deus nascido do Homem, um Homem-Deus, por Graça do Pai pelo Espírito!

E onde isso tudo nos leva? Leva a analogias pertinentes para se compreender porque temos tanto apego à matéria e tanto medo, e porque nos deixamos ser tão levados pelas forças, especialmente, lunares, marcianas e saturninas de baixa frequência em nosso mapa do presente nascimento.

Se pensamos na Queda como a vinda para o elemento mais denso, para a possibilidade de conhecimento do bem e do mal e, portanto, a Porta que se abre para o Si mesmo (Áries, a Ovelha, o Cordeiro), vemos, por lógica e analogia, que estarmos na Terra é como sermos seus filhos e filhas. Ela é a que foi Virgem um dia, recebendo Cristo em seu centro, tendo a Terra se tornado há muito uma Maria, não mais virgem, mas Madalena, corrompida pelo apego que a Hierarquia de Touro nos brinda como desafio junto a Escorpião e sua energia formadora. E verticalizar de Maria Madalena até Maria Virgem (ou seja, verticalizar as três Marias, as três terras: Touro-Escorpião, Virgem-Peixes e Capricórnio-Câncer) é o grande passo necessário, caminhando por cima de todas as águas, Câncer-Capricórnio e Escorpião-Touro, até chegar em Peixes-Virgem, no Filho Amado!

Isso nos revela que compreendermos o processo familiar nosso Aqui e Agora é Extremamente Necessário, não para que ele seja perfeito, coisa que jamais será, mas para que possamos honrar o que nos é ofertado enquanto possibilidade de diálogo.

Se compreendemos psicologicamente, ou psicanaliticamente, como enfrentar os traumas decorrentes da infância, podemos dar o primeiro passo de muitos para chegarmos mais próximos de perdoar o fato de não podermos ser Imortais nesta Terra: pois não é possível ser um Imortal (analogamente: um adulto) se ficarmos para sempre, eternamente, na Terra (analogamente: no colo da mãe)!

Cada vez que renascemos sem termos crescido espiritualmente de forma considerável (porque sabemos que nada estagna, mas avança ou regride, pois é contínuo o movimento), voltamos como filhos birrentos que, ao estar novamente perto da mãe, têm reações absurdas (ainda que inconscientes) de agressividade, indiferença (como no Oriente), ou até mesmo de um medo excessivo e, portanto, apego máximo à materialidade (como no Ocidente), sendo tudo isso fatores que levam à degradação do nosso Planeta, nossa Mãe Terra – ainda que, dependendo da etapa de cada um, precisem ser vividos, pois não há como conscientizar, de pronto, uma criança da sua infantil birra. Por isso ser um exemplo para o mundo ao buscarmos viver o exemplo de Cristo é a maior das curas, pois uma criança aprende principalmente por ver como se comportam os adultos, e não por explicações intelectuais ou dogmas religiosos, isso é apenas paliativo, temporário: a criança aprende algo em igrejas e escolas, mas não Apreende a Verdade que irá guia-la. E não que os outros, tendo uma vez alcançado o grau de Irmão Maior, por exemplo, vá poder iniciá-la, sabemos que não se trata de ser iniciado por Irmãos em que se tem esmero, mas por Graça e Dedicação em verdadeiramente amar o nascimento do Cristo Interno.

Nós ainda somos filhos espirituais ressentidos por, o que julgamos ser nossa mãe (a matéria química), nos ‘abandonar’ por um momento (na morte).  É preciso compreender no Coração que não há abandono em nenhuma hora, mas há sim, assim como na infância enquanto humanos densos, uma ignorância acerca de fatos maiores, de destinos e deveres maiores, como uma mãe que se ausenta porque deve ir cuidar da casa, ir cozinhar, ir ao mercado, ou um pai que silencia porque está focado no trabalho. Nós que, sem maturidade, não compreendemos.

Estar sob a Lua e viver suas fases é uma preparação para ser filho de muitas, não que a poligamia esteja liberada, pois quando se está sendo filho de um planeta, não se tem mães várias, mas apenas a possibilidade de vivência única – um foco máximo. Contudo, quando nos libertamos do vínculo materno e crescemos o suficiente para compreender o que é ter várias mães espirituais, assim como a Lua tem várias fases, aí então poderemos “nascer” em outros planetas ou em outras Luas de outros planetas, quem sabe, não do útero físico de alguém, mas, como bem conhecemos pela Fraternidade, viajando e nos materializando (com as matérias que nos for dado acesso por Graça e tivermos Conhecimento para manuseá-las) em outros planetas, sistemas, e, um dia, galáxias.

É preciso que nos atentemos também para o fato de que o atrito causado especificamente pela perda se dá pela via negativa, pela ausência, pelo que chamaríamos de lado esquerdo, ou polo feminino (com todo devido cuidado de não associar a isso qualquer juízo de valor hodierno), tanto é que a figura da mãe é aquela que o representa em seu lado mais pungente, geralmente (ainda que não seja absoluto nenhum aspecto). No livro Perdas Necessárias a autora chega a nos apresentar um caso de um menino de 6 anos que teve seu corpo em grande parte queimado e que chorava chamando pela mãe: justo a responsável por deliberadamente queimá-lo. Ou seja, mesmo quando é a própria mãe que provoca a perda da forma mais grotesca, ainda assim, será a ela que nosso âmago infantil chamará na hora do desespero.

Isso deixa transparecer que, assim como buscamos e sabemos que neste momento da evolução devemos ir ao encontro do polo masculino, do lado direito, da via da consciência e da presença, devendo, em verdade, voltar ao Pai (e, portanto, devendo urgentemente elevar nossas relações com nossos pais terrestres, relação essa que sabemos estar num ponto extremamente delicado historicamente por o homem estar ainda aprendendo a estar presente numa paternidade mais responsável e mais espiritualizada), devemos, seguindo essa linha de raciocínio, também tratar os atritos com Presença, pois na ausência há um fogo inconsciente que queima, mas na presença dos corpos (se pegamos duas pedras e as atritamos) podemos tornar o fogo chama observável que se nos apresenta para que cresçamos, tornando o fogo consciente. Essa é a diferença do Pai e da Mãe nos queimando, por isso a água (a lágrima), quando gelo, também queima.

Logo, se faz caro observar muito atentamente nossas relações familiares, para que possamos oitavá-las e passar a observá-las também no reino Celeste, tornando-as conscientes.

Aceitar os vários renascimentos e nossos vários pais, por exemplo, é uma das formas de nos prepararmos, através da analogia simbólica, para passarmos pela experiência de sermos filhos de outros pais espirituais. Isso não quer dizer que o Pai, glorificado em Cristo, deixe de ser o Nosso Pai, mas significa que a emancipação dos pais terrenos em muitas formas corresponde à emancipação espiritual que um dia iremos alcançar. Nossos pais desta vida não deixam de ser nossos pais só porque descobrimos que temos um Pai Celeste, tanto que a Lei continua a vigorar: todo pai e mãe, nós devemos honrar! Mas compreendemos que podemos crear pela experiência, pela forja do fogo que arde em nosso forno, as relações de Indivíduos que se Amam, de Deuses que se Amam, simplesmente porque apreendem e criam meios possíveis de iluminar e des-iluminar as relações, compreendendo, finalmente, que a sombra é tão necessária quanto o é o ato de piscar para que a lágrima possa aguar o caminho a ser lavrado pelos pés do olhar, pois onde o olhar assenta, aí o Cristo está.

A Beleza dos olhos está na sua dualidade em nem tudo poder, de uma só vez, o tempo todo, enxergar. É por isso que Saturno se exalta em Libra, pois é o obscuro, é a sombra, é justo a fração de segundos, os minutos e toda a Hierarquia Cronológica que emoldura a Beleza para que Ela possa, Eternamente, Estar no Ser ao Amar.

Que nesta época de Touro possamos refletir sobre como o Amor é o que verdadeiramente nos mantém unidos, para além de relações parentais. O Amor, este Ser que nos é, ainda, incompreensível, mas que devemos, com os exercícios que praticamos, buscar eternamente – para que Tudo possa ser Eterna Creação, e, com isso, possamos todos nos Alegrar.

Que curemos nossas perdas e abandonos. Que tenhamos sabedoria ao atritar na presença dos que, no profundo, amamos.

Que tenhamos coragem, ou seja, que ajamos com o coração, ao nos lembrarmos que sombras são apenas a Luz que não conseguimos, momentaneamente, enxergar. E mesmo que elas não sejam eternas, mas eternamente estejam a nos rodear, lembremos que:

se Eu moro no Amor, em Deus Nós havemos de habitar!

Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz!

Por uma Estudante Rosacruz

 

Pintura inicial de Corrado Giaquinto: A Santíssima Trindade, a Virgem e os Santos. 1755.


A respeito da pintura: “A Trindade representada por Cristo à direita de Deus Pai, ambos sentados em nuvens, sustentam uma coroa que será adornada na cabeça da Virgem, que aparece ajoelhada sobre as nuvens à esquerda da composição em um plano inferior. À direita, se vê João Batista sinalizando Cristo; em suas costas está o Evangelista e múltiplos santos. Entre os quais se pode identificar, figuram os Pais da Igreja (São Gregório, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Jerônimo), São Jorge, o São Hermenegildo com armadura, Santa Bárbara e São José.”

Fonte: Museu do Prado https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/la-santisima-trinidad-la-virgen-y-santos/b367bf9a-0a7f-4623-ac5c-cffdfd7da6f4?searchid=1cc44a84-c890-5b6a-7013-fb750ffb07b6

 

 

Copyright © 2018 Fraternidade Rosacruz - Sede Central do Brasil. Todos os Direitos Reservados.

X
%d blogueiros gostam disto: