Estudo sobre Fausto – Seminário 2018

Filosofia, Vídeos | 25/03/2019
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Fausto Parte I
https://www.youtube.com/watch?v=MvwUd1qiAl0
Fausto Parte II
https://www.youtube.com/watch?v=XXWkCcwiV74
Fausto Parte III

Divina Discórdia

Capítulo 1

Quando o nome Fausto é mencionado, a maioria das pessoas pensa imediatamente na representação teatral da obra de Gounod. Alguns admiram a música, porém a história em si mesma não parece impressioná-los. A primeira vista, parece ser a história, infelizmente muito comum, de um indivíduo sensual que seduz uma jovem confiante e depois a abandona, deixando-a expiar sua loucura e sofrer por ter confiado nele. O toque de magia e encantamento que permeia a obra é considerado por muitos como simples fantasia de um autor, que as usou para tornar mais interessantes as sórdidas condições apresentadas.

Quando Fausto é levado por Mefistófeles para o submundo e Margarida é levada, no final da peça, para o céu em asas angelicais, parece prevalecer apenas o sentido moral comum, para dar à história um fim sentimental.

Uma minoria sabe que a ópera de Gounod é baseada no drama escrito por Goethe. E os que estudaram as duas partes de sua apresentação de Fausto, percebem a diferença entre a idéia original e a que foi apresentada na peça. Esses poucos, que são místicos iluminados, vêem na obra de Goethe a mão inconfundível de um Iniciado esclarecido, e percebem plenamente o grande significado cósmico nela contido.

Devemos entender que a história de Fausto é um mito tão antigo quanto a humanidade. Goethe apresentou-a envolta numa verdadeira luz mística, iluminando um dos maiores problemas da época, o relacionamento e luta entre a Franco-Maçonaria e o Catolicismo, que apresentamos sob outro ponto de vista num livro anterior.

Dissemos diversas vezes em nossa literatura, que um mito é um símbolo velado que encerra uma grande verdade cósmica, uma concepção que difere radicalmente da que é geralmente aceita. Do mesmo modo que damos livros ilustrados para nossas crianças para transmitir-lhes lições além de sua capacidade intelectual, também os grandes Mestres deram à humanidade infantil estes símbolos pictóricos, e, assim, inconscientemente para a humanidade, uma percepção dos ideais apresentados foi gravada em nossos veículos mais sutis.

Assim como uma semente germina oculta no solo antes que possa florescer acima da superfície da terra, do mesmo modo essas gravações traçadas pelos mitos sobre nossas sutis e invisíveis vestes colocaram-nos num estado de receptividade que nos leva prontamente a ideais mais altos e eleva-nos acima das condições mesquinhas do mundo material. Estes ideais teriam sido sufocados pela natureza inferior se não tivessem sido preparados durante eras pela influência legítima de mitos tais como Fausto, Parsifal e narrações semelhantes.

Semelhante à história de Job, a cena do mito de Fausto tem seu início no céu, com a convocação dos Filhos de Seth, entre eles Lúcifer. O final é também no céu como o apresentou Goethe. Como é muito diferente daquilo que é representado comumente no palco, estamos face a face com um problema gigantesco. Na realidade, o mito de Fausto retrata a evolução da humanidade durante a época presente. Também nos mostra como os Filhos de Seth e os Filhos de Caim representam sua parte no trabalho do mundo.

O autor tem o hábito de ater-se e concentrar-se o mais possível sobre cada assunto que está expondo. Mas, algumas vezes, as circunstâncias justificam o afastamento do tema principal, como agora acontece com o mito de Fausto. Se fôssemos discorrer sobre ele, apenas no que se refere à Franco-Maçonaria e ao Catolicismo, teríamos que voltar ao tema mais tarde, para iluminar outros pontos de vital interesse como o desabrochar da alma e o trabalho da raça humana. Esperamos, portanto, que as digressões não sejam criticadas.

Na cena de abertura, três dos Filhos de Deus, Espíritos Planetários, são vistos curvando-se ante o Grande Arquiteto do Universo, cantando a música das esferas em sua adoração ao Ser Inefável, que é a fonte de vida, o autor de todas as manifestações. Goethe apresenta um desses sublimes Espíritos estelares dizendo:

“O Sol entoa sua velha canção,

Entre os cânticos rivais das esferas irmãs,

Seu caminho predestinado vai trilhar

Através dos anos, em retumbante marchar”.

Modernos instrumentos científicos foram inventados, por meio dos quais, em testes de laboratório, ondas de luz são transmutadas em som, demonstrando assim no Mundo Físico o aforismo místico da identidade dessas manifestações. O que antes era evidente apenas para o místico capaz de elevar sua consciência para a Região do Pensamento Concreto, agora também é percebido pelos cientistas. Portanto, o canto das esferas, primeiramente mencionado por Pitágoras, não deve ser encarado como uma idéia vaga concebida por uma imaginação poética, nem como uma alucinação de um cérebro demente.

Goethe pôs um significado em toda a palavra que proferiu. As estrelas têm, cada uma, sua própria nota-chave e viajam em torno do Sol à velocidades tão diversas que suas posições de agora não se repetirão até que se passem 27.000 anos. Assim, a harmonia dos céus muda a cada momento e, ao mudar, o mundo altera também suas idéias e ideais. A dança circular das orbes em movimento, ao som da sinfonia celestial criada por elas, marca o progresso do homem ao longo do caminho que chamamos evolução.

Mas é uma idéia errada pensar que a harmonia constante é agradável. A música assim expressa tornar-se-ia monótona; ficaríamos fatigados com a harmonia contínua. Na verdade, a música perderia seu atrativo se não fossem as dissonâncias entremeadas freqüentemente. Quanto mais próximo da dissonância o compositor puder chegar, sem realmente incorporá-la à partitura, mais agradável será sua composição quando esta criar vida através de instrumentos musicais. O mesmo acontece no canto das esferas; nós nunca atingiríamos a individualidade para a qual toda a evolução se dirige, sem a dissonância divina.

Portanto, o Livro de Job designa Satã como sendo um dos Filhos de Deus. E o mito de Fausto fala de Lúcifer como estando presente também na convocação que ocorre no capítulo inicial da história. Dele vem a nota salvadora de dissonância que forma um contraste na harmonia celestial, e, como a luz mais brilhante provoca a sombra mais densa, a voz de Lúcifer realça a beleza do canto celestial.

Enquanto os outros Espíritos Planetários inclinam-se em adoração quando contemplam as obras do Mestre Arquiteto reveladas no Universo, Lúcifer emite a nota de crítica, de censura, nas palavras dirigidas contra a obra-prima de Deus, o rei das criaturas, o homem:

“Dos sóis e dos mundos nada tenho a dizer,

Vejo apenas quanto o homem se atormenta:

Esse pequeno deus do mundo, sua marca quer reter,

Tão surpreendente agora como no primeiro dia.

Pobre ser, se ele pudesse ter-se afastado, melhor seria,

Tivesses Tu conservado nele a luz celestial,

Que ele chama de razão mas não a usa,

E cresce mais grosseiro que o irracional”.

Considerado sob o ponto de vista de gerações anteriores, isto pode soar como sacrilégio, mas, sob a luz dos tempos modernos, podemos entender que mesmo num ser tão exaltado que é designado pelo nome de Deus, deve haver crescimento. Podemos sentir o esforço para maiores aptidões, a contemplação de futuros universos oferecendo maiores facilidades para a evolução de outros Espíritos Virginais, que são o resultado das imperfeições notadas no esquema de manifestação por seu exaltado Autor. Além disso, como “em Deus vivemos, nos movemos e temos nosso ser”, assim também a nota dissonante emitida pelos Espíritos de Lúcifer elevar-se-ia dentro Dele. Não seria um agente externo que chamaria a atenção para erros ou O censuraria, mas Seu próprio e divino reconhecimento de uma imperfeição a ser transmutada em bem maior.

Lemos na Bíblia que Job era um homem perfeito, e no mito de Fausto, o detentor do papel principal é designado como um servidor de Deus, pois naturalmente o problema do desabrochar, de maior crescimento, deve ser solucionado pelos mais avançados. Pessoas comuns, ou aqueles que estão mais baixo na escala da evolução, ainda têm que percorrer a parte da estrada já vencida por outros, como Fausto e Job, que são a vanguarda da raça e que são considerados pela humanidade comum da mesma maneira que Lúcifer os descreve, isto é, como tolos e esquisitos.

“Pobre tolo, sua comida e bebida não são da terra,

UM impulso interno para a frente o empurra;

Ele próprio, meio consciente de seu humor exaltado.

Pela mais linda estrela do céu tem ansiado.

O melhor e o mais alto da terra tem desejado,

E tudo o que está perto e está longe, do mesmo jeito;

Nada pode acalmar os anseios do seu peito”.

Para tais pessoas deve ser aberto um novo e mais elevado caminho para lhes dar maiores oportunidades de crescimento; daí a resposta de Deus:

“Embora, em perplexidade, ele me sirva agora,

Para onde aparecer a luz, Eu logo o guiarei;

Quando a árvore nova tiver brotos, o jardineiro sabe,

Com flores e frutos seus anos vindouros beneficiarei”.

Capítulo II

As Tristezas da Alma que Procura

Como o exercício é necessário ao desenvolvimento dos músculos físicos, assim o desenvolvimento da natureza moral é realizado pela tentação. Ao ser dada uma alternativa ao Ego, este poderá exercitá-la em qualquer direção que escolher, pois aprende tanto por seus erros como por seus atos corretos, e estes são bem mais proveitosos. Portanto, no mito de Job, o demônio tem permissão para tentar, e no mito de Fausto, ele pede:

“Meu Senhor, se eu puder conduzi-lo a meu gosto,

Tu o perderás, eu aposto”.

Ao que o Senhor responde:

“Consinto-o!

Desvia este espírito da original fonte,

Podes dominá-lo, exerce o teu poder,

Se ele por tua direção for descer.

Mas ficarás envergonhado

Quando a reconhecer fores forçado,

Que um homem bom em sua mais escura aberração

Conhece ainda o caminho que o conduz à salvação.

Vai, és livre para agir sem controle enfim.

Pelos que são como tu, não nutro aversão;

De todos os espíritos de negação

O cínico é o menos aborrecido vara Mim.

Do trabalho, o homem é inclinado a se esquivar

Ele viveria de bom grado, tranqüilo a descansar.

Por isso, de propósito, Eu te dou este companheiro

Que se agita, se excita e como um demônio deve trabalhar.

Mas vós, ó fiéis Filhos de Deus, a ninguém ides ofender,

Regozijai-vos em toda a imortal beleza,

O imortal, tão próprio e crescente em grandeza;

Preparai-vos agora com amor e no dever”.

A trama está pronta e Fausto está prestes a ser enredado nas armadilhas que cercam o caminho de toda alma que procura. As linhas seguintes mostram o propósito benéfico e a necessidade da tentação. O Espírito é uma parte integral de Deus; originalmente inocente, mas não virtuoso. A virtude é uma qualidade positiva, desenvolvida ao tornar-se uma posição firme diante da tentação ou pelo sofrimento suportado em conseqüência dos erros cometidos. Assim, o prólogo no céu dá ao mito Fausto seu mais alto valor como um guia, e também o encorajamento à alma que procura. Mostra o objetivo eterno que está por detrás das condições terrenas que nos causam dor e tristeza.

Em seguida, Goethe apresenta-nos o próprio Fausto, que está de pé em seu escuro gabinete. Ele está empenhado na introspecção e na retrospecção:

“Eu tenho, ai de mim, filosofia, medicina e lei,

Teologia também eu estudei!

Agora aqui estou com todo o meu saber,

Um tolo, não mais sábio do que antes.

Pensei a humanidade melhorar

E a mente humana elevar;

Por proveitos ou tesouros nunca trabalhei,

Nem por honras mundanas, posição ou prazer;

Com livros toda vida eu batalhei.

Mas, agora, à mágicas eu me dou;

Espero, através do espírito, pela voz e poder,

Segredos velados à luz trazer.

Que eu não mais com semblante dolorido

Necessite falar do que não hei sabido.

Pobre de mim! Ainda prisioneiro desta escuridão estou

Neste abominável e bolorento quarto gelado,

Onde a querida luz do céu passou

Obscuramente através do vidro pintado.

Avante! Em frente para a terra distante.

Não é este o livro de mistérios

Que pela mágica mão de Nostradamus

Será um guia suficiente?

Verás o curso das estrelas e saberás, então,

Quando a natureza for seus pensamentos revelar

A ti. Tua alma se elevará e irá procurar

Ter com ela uma elevada e duradoura comunhão”.

Uma vida inteira de estudos não trouxe a Fausto um conhecimento real. As fontes convencionais de aprendizado provaram ser estéreis no resultado final. O cientista pode considerar Deus desnecessário, uma redundância; pode acreditar que a vida consiste só de ação e reação química – isto acontece quando ele está no começo. Mas, quanto mais se aprofunda na matéria, maiores são os mistérios que encontra em seu caminho, e, ao fim, será forçado a abandonar algumas pesquisas ou passa a acreditar em Deus como um Espírito cuja vida envolve cada átomo de matéria. Fausto chegou a esse ponto. Ele diz que não tem trabalhado por ouro, “nem tesouros”, nem honras mundanas, posição ou prazer”. Esforçou-se pelo amor à pesquisa e atingiu o ponto em que percebe que um mundo espiritual está todo ao seu alcance; e, através desse mundo, por magia, ele aspira agora um conhecimento mais elevado e mais real do que aquele contido nos livros. Tem em sua mão um volume escrito pelo famoso Nostradamus, e ao abri-lo contempla o emblema do macrocosmo. O poder nele contido abre em sua consciência uma parte do mundo que ele está procurando e, num êxtase de alegria, exclama:

“Ah! A este espetáculo através de todos os sentidos,

Que súbito êxtase de alegria está fluindo;

Sinto novo enlevo, abençoado e intenso.

Do mundo do homem sábio o sentido estou aprendendo:

O mundo do espírito e o saber são revelados,

Teu coração está morto, teus sentidos fechados;

Avante, estudante! Com zelo imorredouro vem banhar

Teu peito terrestre no rubro amanhecer.

Como tudo que vive e produz estão sempre a combinar,

Tece um grande todo da ampla gama do Ser,

Que a força celeste, subindo e descendo, possas ver,

Suas taças douradas incessantemente cruzando.

Seu vôo no enlevo de sussurrantes asas vagando,

Do céu à terra, o ritmo trazer”.

Mas, novamente o pêndulo oscila para trás. Como a tentativa de fitar diretamente a brilhante luz do Sol resultaria na destruição da retina, assim a audaciosa tentativa de penetrar o Infinito resulta em malogro e a alma que procura é lançada do êxtase da alegria para a escuridão do desespero:

“Um maravilhoso espetáculo, mas, ah! um espetáculo somente.

Onde poderei agarrar-te, natureza infinita, onde?

Teu peito, tu és fonte de toda a vida

Onde se apóiam os céus e a terra, onde o coração debilitado

Por consolo anseia, e tu ainda tens partilhado

De tuas doces e encorajadoras marés: onde estás. onde te ouvir?

Tu jorras, e, em desespero, eu hei de me consumir”.

Antes de podermos com sucesso aspirar a um conhecimento superior, devemos primeiro entender o inferior. Falar e delirar sobre os mundos além, sobre corpos mais sutis, quando temos só uma leve idéia dos veículos com os quais trabalhamos todos os dias e do ambiente em que nos movimentamos, é ignorar a realidade. “Homem, conhece-te a ti mesmo”, é um ensinamento sábio. A única segurança está em galgarmos a escada, degrau por degrau, nunca tentando dar um novo passo enquanto não nos sentirmos firmes e equilibrados naquele em que estamos. Muitas almas podem repetir, pela sua própria experiência, o desespero personificado nas palavras de Fausto.

Ingenuamente, ele começou pelo ponto mais alto. Sofreu a decepção, mas ainda assim não compreendeu que devia começar pela base. Portanto, inicia uma evocação ao Espírito da Terra:

“Espírito da Terra, Tu para mim estás mais perto,

Ainda agora minha força está crescendo,

Coragem eu sinto para em toda parte do mundo ousar,

O infortúnio e a bem-aventurança da terra suportar;

Lutar contra as tempestades, e com bravura o fulgor do raio enfrentar,

Em meio ao fragor do naufrágio não desesperar.

Nuvens acumulam-se sobre mim, a luz do luar ocultando

O fulgor da lâmpada que se extingue com a escuridão da noite,

Erguem-se brumas, uma emanação vermelha e lampejante

Em minha cabeça esses feixes de luz vão penetrar;

Estou dominado por um trêmulo pavor angustiante.

Espírito, compelido pela prece, Tu que vais pairar

Por perto, revela-te agora, por favor,

Meu coração jubilosamente vou-Te entregar;

Deves aparecer, se livre a vida for”.

Como dissemos no ‘Conceito Rosacruz do Cosmos’, e como já elucidamos na Filosofia Rosacruz uma questão concernente ao ritual latino na Igreja Católica, um nome é um som. Corretamente proferido, não importa por quem, tem uma forte influência sobre a inteligência que representa, e a palavra usada em cada grau de Iniciação, dá ao homem acesso a uma particular esfera de vibração Povoada por certas classes de Espíritos. Portanto, como um diapasão corresponde a uma nota de igual intensidade, assim também Fausto ao pronunciar o nome do Espírito da Terra, abre sua consciência à essa presença totalmente penetrante.

Devemos lembrar que a experiência de Fausto não é um exemplo isolado do que pode acontecer sob condições anormais. Ele é um símbolo da alma que procura. Num certo sentido, você e eu somos Faustos, pois em algum estágio de nossa evolução encontraremos o Espírito da Terra e compreenderemos o poder do Seu nome corretamente pronunciado.

Capítulo III

As Tristezas da Alma que Procura (continuação)

Em A Estrela de Belém, um Fato Místico, tentamos transmitir aos estudantes uma noção de certa fase da Iniciação. A maioria das pessoas caminha na Terra e vê apenas uma massa aparentemente morta. Mas, um dos primeiros fatos revelados em nossa consciência pela Iniciação, é a realidade viva do Espírito da Terra. Como a superfície de nosso corpo é morta comparada com os órgãos internos, assim também o invólucro externo da Terra não dá idéia da maravilhosa atividade interna. No caminho da Iniciação nove camadas diferentes são reveladas, e no centro desta esfera giratória deparamos, face a face, com o Espírito da Terra. É verdade que ele está “gemendo e sofrendo” na Terra por todos nós, trabalhando e esperando ansiosamente por nossa manifestação como Filhos de Deus para que, assim como a alma que procura e aspira a libertação é desprendida de seu corpo denso, também o Espírito da Terra possa ser libertado de seu corpo mortal no qual está agora confinado por nós. Para Fausto, as palavras do Espírito da Terra, ditas por Goethe, oferecem esplêndido material para meditação, pois representam misticamente o que o candidato sente quando percebe pela primeira vez a verdadeira realidade do Espírito da Terra como uma presença viva, trabalhando sempre ativamente para nossa elevação.

“Nas correntes da vida, na ação da tempestade,

Eu flutuo e balanço em movimento ondulado;

Nascimento e túmulo, um oceano ilimitado;

Um constante tecer em oportunidade abundante,

Uma Vida ardente, um movimento incessante,

Zunindo o tear do tempo, eu tenho continuamente seguido;

O vivo traje de Deus, é assim por mim tecido”.

Naturalmente, o Espírito da Terra não é para ser idealizado com o aspecto de um homem grande, ou como tendo uma forma física que não seja a da própria Terra. O corpo vital de Jesus, o qual o Espírito Cristo utilizou antes de seu ingresso na Terra, tem a forma humana comum; está preservado e é mostrado ao candidato num certo ponto de sua escalada. Algum dia, num futuro distante, abrigará novamente o benevolente Espírito Cristo em Seu retorno do centro da Terra. Isto acontecerá quando nós nos tivermos eterizado, e quando Ele estiver pronto para ascender à esferas mais elevadas, deixando-nos para que sejamos instruídos sobre o Pai, cuja religião será mais elevada do que a religião Cristã.

A verdade esotérica de que quando um Espírito entra por uma determinada porta, deve também retornar da mesma maneira, é ensinada por Goethe em relação à aparição inicial de Mefistófeles a Fausto. Fausto não está no caminho regular da Iniciação. Não recebeu permissão nem ajuda dos Irmãos Maiores; está batendo na porta errada devido à sua impaciência. Portanto é rejeitado pelo Espírito da Terra e, quando pensa ter conseguido entrar, é lançado dos píncaros da alegria ao abismo do desespero, onde compreende que realmente falhou.

“Eu, a própria imagem de Deus, desta labuta de barro

Já liberto, eu que saudei

O espelho da eterna verdade e a revelei,

Em meio ao dia celestial e à luz fulgurando,

Eu, cuja alma está se libertando

E. com olhar penetrante, aspirei fluir

Pelas veias da natureza, e ainda criando

Conheço a vida dos deuses … agora estão a me punir,

Uma fulminante palavra afastou-me do caminho!

Espírito. eu não ouso elevar-me à tua esfera, sozinho;

E embora meu poder te compelisse a aparecer

Minha arte foi inútil para aqui conseguir te deter.

Cruelmente, do reino do pensamento senti o arremessar

De volta ao destino incerto da humanidade!

Quem agora vai me ensinar? A que devo eu renunciar?”

Ele pensa que as fontes de informação estão exauridas e que nunca poderá atingir o verdadeiro conhecimento. E, temendo a depressiva monotonia de uma existência trabalhosa e comum, agarra um frasco de veneno e está prestes a bebê-lo, quando canções do lado de fora proclamam a ascensão de Cristo, pois é manhã de Páscoa. A este pensamento, nova esperança agita sua alma. Além disso, é também perturbado em seu propósito pela chegada de Wagner, seu amigo.

Caminhando em direção a ele, Fausto emite o grito de agonia arrancado de toda alma aspirante na terrível luta entre as naturezas superior e inferior. Enquanto vivemos nossa vida mundana, sem aspirações elevadas, há paz em nosso íntimo. Mas, uma vez sentido o chamado do Espírito, nosso equilíbrio é alterado, e quanto mais ardentemente persistimos na procura do Graal, mais violenta é esta luta interna. Paulo considerava-se um homem desditoso porque os desejos inferiores da carne combatiam as suas mais elevadas aspirações espirituais. As palavras de Fausto têm um significado semelhante:

“Duas almas, oh! moram dentro do meu peito,

E aí lutam por um indivisível reino;

Uma aspira pela terra, com vontade apaixonada

Às íntimas entranhas ainda está ligada.

Acima das névoas, a outro aspira, de certeza,

Com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza”.

Mas ele não percebe que o caminho para obter a realização desejada é árduo e que cada um deve trilhá-lo sozinho para alcançar a paz. Julga que os Espíritos podem dar-lhe o poder da alma, pronto para ser usado:

“Oh! Há Espíritos no ar,

Que flutuam entre o céu e a terra em domínio atuando?

Inclinai-vos de vossa atmosfera dourada e levai-me

Para cenários, nova vida e em plena rendição ireis me guiando.

Se eu Possuísse um manto mágico, simplesmente,

Para transportar-me como que em invisíveis asas, largamente,

Muito mais do que custosas vestes eu o prezaria,

E nem por um manto real o trocaria”.

Por esperar assim a ajuda dos outros, está condenado à desilusão. Se és Cristo, ajuda-te a ti mesmo”, é a regra universal, e a autoconfiança é a virtude fundamental a qual os aspirantes são exortados a cultivar na Escola de Mistérios Ocidental. Ninguém deve apoiar-se nos Mestres ou seguir cegamente os Guias. Os Irmãos da Rosacruz procuram emancipar as almas que a eles recorrem; dispõem-se a orientá-las, fortalecê-las e torná-las co-participantes diretas nesse trabalho. Filantropos não aparecem facilmente e quem pretender do Mestre mais do que uma orientação, terá uma decepção. Não importa as pretensões que alguns mestres possam ter, não importa se eles vêm fisicamente ou como Espíritos, não importa quão espirituais pareçam, os Mestres positivamente não podem fazer por nós as boas ações necessárias para o crescimento anímico, nem dar-nos o conseqüente poder da alma pronto para ser usado, do mesmo modo que não podem conferir-nos força física ingerindo nosso alimento. Na verdade, Fausto, a alma que procura, atrai um Espírito pronto para servi-lo, mas é um Espírito de natureza indesejável: Lúcifer. Quando Fausto pergunta seu nome, ele responde:

“O Espírito de Negação: a força que mesmo o mal planejando,

Para o bem está trabalhando”.

Pessoas ou Espíritos que se dispõem a satisfazer nossos desejos, geralmente têm um fim em vista.

Chegamos agora a um ponto que envolve uma importante lei cósmica, que fundamenta vários fenômenos espiritualistas e corrobora o singular ensinamento da Fraternidade Rosacruz (e da Bíblia) de que Cristo não voltará num corpo denso, mas sim num corpo vital. Mostra também por que Ele deve voltar. Os estudantes devem empenhar-se em ler cuidadosamente o seguinte,

Atraído pela atitude mental de Fausto, Lúcifer segue-o em seu gabinete. No chão, junto à porta, está uma estrela de cinco pontas, com duas das pontas próximas da porta. No processo normal da Natureza, o Espírito humano entra em seu corpo denso durante a vida pré-natal e retira-se, na ocasião da morte, pela cabeça. Os Auxiliares Invisíveis que aprenderam a transmutar sua força sexual em poder da alma no corpo pituitário, também saem e entram no corpo denso pela cabeça; portanto, o pentagrama com uma ponta para cima, simboliza a alma aspirante que trabalha em harmonia com a Natureza.

O mago negro, que não tem alma nem poder de alma, também usa a força do sexo. Ele deixa e entra em seu corpo pelos pés, o cordão prateado projetando-se do órgão sexual. Portanto, o pentagrama com duas pontas para cima é o símbolo da magia negra. Lúcifer não teve dificuldade para entrar no gabinete de Fausto, mas, quando ele quer sair depois de dialogar com seu interlocutor, uma única ponta barra seu caminho. Ele pede a Fausto para remover o símbolo e este pergunta:

Fausto: “O Pentagrama tua Paz perturba,

Explica-me, filho do inferno,

Se ele tua saída impede, como pudeste entrar?

Onde está a armadilha,

Por que pela janela não te podes retirar?”

Lúcifer: “Para os fantasmas e espíritos é uma lei

Por onde entrarmos, por aí sair devemos.

Somos livres para a primeira entrada escolher,

Mas da segunda, escravos vamos ser”.

Até o ano 33 D.C., Jeová guiou nosso planeta em sua órbita e a humanidade no caminho da evolução, de fora. No Gólgota, Cristo entrou na Terra, que Ele agora guia de dentro, e continuará até que um número suficiente de nossa humanidade tenha desenvolvido a força de alma necessária para pairar na Terra e guiar nossos irmãos mais jovens. Isto requer habilidade para viver em corpos vitais, capazes de levitação. O corpo vital de Jesus, através do qual Cristo entrou na Terra, é Seu único meio de retornar ao Sol. Portanto, o Segundo Advento será no corpo vital de Jesus.

Capítulo IV

Vendendo sua Alma a Satanás

O mito de Fausto apresenta uma situação curiosa no encontro do herói, que é a alma que procura, com diferentes classes de Espíritos. O Espírito de Fausto, inerentemente bom, sente-se atraído para as ordens superiores; sente afinidade pelo benevolente Espírito da Terra, e deplora a incapacidade de retê-lo e aprender com ele. Face a face com o espírito de negação, ao qual está disposto a servir, ele se sente de um certo modo senhor da situação, porque esse espírito não pode sair pela parte superior do símbolo da estrela de cinco pontas na posição em que está colocada no chão. Mas, tanto sua incapacidade em reter o Espírito da Terra e obter instrução desse exaltado Ser, como seu domínio sobre o espírito de negação, decorrem do fato dele ter entrado em contato com eles por acaso e não através do poder da alma desenvolvido internamente.

Quando Parsifal, o herói de outro desses grandes mitos da alma, visitou pela primeira vez o Castelo do Graal, foi-lhe perguntado como havia chegado ali, e ele respondeu: “Eu não sei”. Aconteceu que ele entrou no lugar sagrado da mesma forma que uma alma percebe, às vezes, um vislumbre dos reinos celestiais numa visão; mas ele não podia ficar no Monte Salvat. Foi forçado a sair novamente para o mundo e aí aprender suas lições. Muitos anos depois ele retornou ao Castelo do Graal, triste e cansado da busca e a mesma pergunta lhe foi feita: “Como chegaste aqui?” Mas, desta vez, sua resposta foi diferente, pois disse: “Através da procura e do sofrimento eu vim”.

Este é o ponto fundamental que marca a grande diferença entre alguns que se põem em contato com Espíritos dos reinos suprafísicos por acaso e tropeçam no entendimento de uma lei da Natureza, ou aqueles que, por zelosos estudos e principalmente por viver a vida, obtêm a Iniciação, conscientes dos segredos da Natureza. Os primeiros não sabem como usar este poder inteligentemente e estão, portanto, desamparados. Os últimos são sempre senhores das forças que manejam, enquanto os outros são vítimas de quem quiser tirar vantagem deles.

Fausto é o símbolo do homem, e a humanidade foi, no princípio, dirigida pelos Espíritos de Lúcifer e pelos Anjos de Jeová. Agora estamos olhando para o Espírito Cristo na Terra como o Salvador, para emancipar-nos da influência egoísta e negativa dos lucíferos.

Paulo nos dá uma visão da evolução futura que nos está destinada, quando disse que, após Cristo estabelecer Seu reino, Ele o entregará ao Pai, e então será tudo em tudo.

No entanto, Fausto procura primeiro comunicar-se com o macrocosmo, que é o Pai. Como o centauro celeste, Sagitários, ele aponta seu arco para as estrelas mais altas. Não está satisfeito em começar por baixo e galgar o cimo gradativamente. Quando repelido por aquele sublime Ser, desce um degrau na escala e procura comunhão com o Espírito da Terra, que também o desdenha, pois ele não pode tornar-se o pupilo das elevadas forças enquanto não ajustar-se às suas regras, para assim poder entrar no caminho da Iniciação pela porta verdadeira. Portanto, quando percebe que o pentagrama junto da porta detém o Espírito do mal, entrevê uma oportunidade para fazer um acordo. Está pronto para vender sua alma a Satanás.

Mas, como foi dito antes, está totalmente despreparado para manter o domínio com êxito, e o poder do espírito rapidamente desobstrui o caminho e liberta Lúcifer. Mas este, embora saia do gabinete de Fausto, logo volta, pronto para negociar com a alma que procura. Ele descreve, diante dos olhos de Fausto, quadros brilhantes de como viver a vida, como poderá satisfazer suas paixões e desejos. Fausto, sabendo que Lúcifer não está desinteressado, pergunta que compensação ele quer. A isto, Lúcifer responde:

” Eu me comprometo a ser teu servo aqui, enfim,

E a todo o teu aceno e chamado, alerta vou estar;

Mas, quando na esfera além nos formos encontrar,

Então, tu farás o mesmo para mim”.

O próprio Fausto acrescentou uma condição aparentemente singular com respeito à época em que o serviço de Lúcifer terminar, e quando sua própria vida terrestre tiver chegado ao fim.

Embora pareça estranho, nós temos na aquiescência de Lúcifer e na cláusula proposta por Fausto, leis básicas de evolução. Pela Lei de Atração somos postos em contato com Espíritos semelhantes, tanto aqui como na vida futura. Se servimos as forças superiores aqui e trabalhamos para elevar-nos, encontraremos companheiros com a mesma índole neste mundo e no próximo. Mas, se gostamos da escuridão mais do que da luz, estaremos ligados ao submundo aqui e no futuro também. Não há como escapar desta lei.

Além disso, somos todos “construtores do templo” trabalhando sob a direção de Deus e Seus ministros, as divinas Hierarquias. Se evitarmos a tarefa que nos foi imposta na vida, seremos colocados sob condições que nos forçarão a aprender. Não há descanso nem paz no caminho da evolução e se procurarmos prazer e alegria a ponto de excluir o trabalho da vida, o dobrar fúnebre dos sinos logo será ouvido. Se chegarmos, alguma vez, a um ponto em que estejamos inclinados a ordenar que as horas parem ou se estamos tão satisfeitos com a nossa vida que até cessamos nossos esforços para progredir, nossa existência estará rapidamente terminada. Observamos que as pessoas que se retiram dos negócios vivendo apenas para aproveitar o que acumularam, logo morrem; enquanto que o homem que troca sua profissão por uma outra ocupação, geralmente vive mais tempo. Nada é tão fácil para encerrar uma existência do que a inatividade. Como já foi dito, as Leis da Natureza são enunciadas no acordo de Lúcifer e na condição acrescentada por Fausto:

“Se eu me satisfizer com a indolência e o lazer,

Que seja essa, então, a última hora que eu possa ter.

Quando tu com lisonjas me fores adular

Até que auto-complacente eu venha a ser;

Quando tu com prazeres me puderes enganar,

Seja esse o meu dia final.

Sempre que a hora for passando

Eu digo: ‘Oh! fica, és tão leal!’

Assim, a força a ti eu vou dando

De levar-me ao mais profundo desespero.

Meu dobrar de sinos não o deixes prolongar,

De meu serviço, livre irás ficar;

E quando do relógio o ponteiro indicador tiver caído,

Esteja, então, o meu tempo concluído”.

Lúcifer pede a Fausto que assine o contrato com uma gota de sangue. E quando perguntado por que, diz astuciosamente: “O sangue é uma essência muitíssimo peculiar”. A Bíblia diz que é assento da alma.

Quando a Terra estava em processo de condensação a aura invisível que circundava Marte, Mercúrio e Vênus, penetrou na Terra e os Espíritos desses planetas estiveram em relacionamento especial e íntimo com a humanidade. O ferro é metal de Marte e pela mescla do ferro com o sangue, a oxidação torna-se possível; assim, o calor interno, necessário para a manifestação de um Espírito que habita internamente, foi obtido pela ação dos Espíritos Lucíferos de Marte. Eles são, portanto, responsáveis pelas condições sob as quais o Ego está enclausurado no corpo denso.

Quando o sangue é extraído do corpo humano e coagula, cada partícula tem uma forma especial, distinta das partículas de qualquer outro ser humano. Portanto, quem tiver sangue de uma certa pessoa, tem um elo de ligação com o Espírito que construiu as partículas do sangue. Ele tem poder sobre essa pessoa, se souber como usar esse conhecimento. Foi essa a razão porque Lúcifer exigiu a assinatura com o sangue de Fausto, pois com o nome de sua vítima escrito em sangue, poderia conservar a alma escravizada de acordo com as leis envolvidas.

Sim, de fato! O sangue é uma essência muitíssimo peculiar, importante tanto na magia branca como na negra. Todo conhecimento usado em qualquer direção, deve necessariamente alimentar-se da vida que é primariamente derivada dos extratos do corpo vital, isto é, a força do sexo e o sangue. Todo conhecimento que não seja assim alimentado e nutrido, é tão impotente como a filosofia que Fausto tirou de seus livros. Livros não são suficientes por si só. Somente na medida em que trazemos esses conhecimentos para nossas vidas, alimentando-os e vivenciando-os, é que eles têm real valor.

Existe, no entanto, uma importante diferença a considerar: enquanto o aspirante da Ciência Sagrada alimenta sua alma com sua própria força sexual, e as paixões inferiores com seu próprio sangue que, então, ele transmuta e depura, aqueles que aderem à magia negra vivem corno vampiros à custa da força sexual dos outros e do sangue impuro sugado das veias de suas vítimas. No Castelo do Graal vemos o sangue puro e depurador operando maravilhas sobre os cavaleiros virtuosos que aspiravam desempenhar elevadas ações. Porém, no Castelo de Herodes, a personificação da voluptuosidade – Salomé – fez com que o sangue da paixão corresse desenfreadamente pelas veias dos participantes, e o sangue que jorrou da cabeça do martirizado Batista serviu para dar-lhes o poder que eles não tinham, por serem muito covardes para adquiri-lo através do sofrimento e da própria depuração.

Fausto tenciona adquirir poder rapidamente com o auxílio de outros, tocando num ponto perigoso, do mesmo modo como fazem hoje aqueles que seguem os que se intitulam “adeptos” ou “mestres”. Estes estão prontos para explorar os mais baixos apetites dos crédulos, da mesma forma que Lúcifer ofereceu-se para ajudar Fausto. Mas eles nunca poderão dar o poder da alma, não importa o que aleguem. Isto é conquistado internamente, pela paciente perseverança em fazer o bem, um fato que nunca será demasiado repetir.

Capítulo V

Vendendo sua Alma a Santanás (continuação)

Por estar aborrecido, Fausto responde com desdém à exigência de Lúcifer de assinar com sangue o pacto entre eles e, então, profere as seguintes palavras:

“Não temas que faltar à minha palavra eu vá.

O propósito de toda a minha energia

Em inteira concordância com meu juramento está.

Levianamente, muito alto tenho aspirado;

Estou no mesmo nível que tu;

Eu, o Grande Espírito escarnecido; desafiado.

A própria Natureza se escondeu de mim.

Rasgada está a teia do pensamento; minha mente

Abomina toda a classe de conhecimento.

Nas profundezas. de prazeres sensuais mergulhadas

Deixemos ficar nossas paixões incendiadas,

Envoltas nos abismos de mágicos véus formosos,

E que nossos sentidos vibrem em encantos assombrosos”.

Tendo sido desdenhado pelas forças que conduzem ao bem e estando completamente dominado pelo desejo de obter conhecimento direto e de verdadeiro poder, está disposto a ir até as últimas conseqüências. Mas Deus está sempre presente, como foi dito no prólogo:

“Um homem bom em sua mais escura aberração,

Conhece ainda o caminho que o conduz à salvação”.

Fausto é a alma aspirante, e a alma não pode ser permanentemente desviada do caminho da evolução.

A declaração de Fausto sobre seu objetivo corrobora,a afirmação de que ele tem um ideal elevado, mesmo quando chafurda na lama. Ele quer experiência:

“O fim que eu aspiro não é o prazer.

Agonizante bem-aventurança – eu anseio por realização.

Ódio enamorado, rápido aborrecimento.

Purgado do amor do saber, minha vocação.

De hoje em diante, o objetivo de todos os meus poderes vai ser

Livrar meu peito de toda angústia, conhecer

Todo o infortúnio e o bem estar humanos no âmago do meu coração.

O sublime e o profundo em pensamento abraçar,

Os vários destinos do homem em meu peito acumular”.

Antes que alguém possa ser realmente compassivo, deve sentir, como Fausto também o deseja, tanto a profundidade das tristezas da alma humana como suas elevadas alegrias; pois, somente quando conhecemos estes extremos dos sentimentos humanos podemos sentir a compaixão necessária por aqueles que precisam ser ajudados, e assim colaborar na elevação da humanidade. Através de Lúcifer, Fausto é capaz de conhecer tanto a alegria como a tristeza. Lúcifer também admite isto quando diz:

“A força que mesmo o mal planejando

Para o bem está trabalhando”.

Pela interferência dos Espíritos de Lúcifer no esquema da evolução, as paixões da humanidade foram despertadas, intensificadas e conduzidas para um canal que tem causado todas as tristezas e enfermidades no mundo. Não obstante, isso despertou a individualidade no homem e libertou-o das condições liderantes dos Anjos. Fausto, pela ajuda de Lúcifer, é afastado dos caminhos convencionais, tornando-se assim individualizado. Quando o pacto entre Fausto e Lúcifer foi concluído, tivemos a réplica dos Filhos de Caim, que são os descendentes e protegidos dos Espíritos de Lúcifer, como vimos em “Maçonaria e Catolicismo”.

Na tragédia de Fausto, Margarida é a protegida dos Filhos de Seth, o clero, descrito na lenda Maçônica. No momento, as duas classes representadas por Fausto e Margarida devem defrontar-se, e entre elas será encenada a tragédia da vida. Em conseqüência das desgraças sofridas por elas, a alma criará asas que a elevarão novamente aos reinos das bem-aventuranças de onde veio. Nesse ínterim, Lúcifer leva Fausto à cozinha das bruxas onde ele vai receber o elixir da juventude, para que, rejuvenescido, possa tornar-se desejável aos olhos de Margarida.

Quando Fausto aparece no palco, a cozinha das bruxas está repleta de instrumentos que são usados em magia. Um fogo infernal queima sob uma chaleira onde são preparadas as poções de amor, e há aí muito mais coisas fantásticas. Observamos vários objetos inanimados, mas o que mais desperta a nossa atenção é uma família de macacos, a qual tem um grande significado porque representa uma fase da evolução humana.

A humanidade, satisfeita com a paixão instigada pelos Espíritos de Lúcifer ou Anjos caídos, libertou-se da hoste angelical liderada por Jeová. Como conseqüência desse obstinado desejo, foram logo envolvidos por “revestimentos de pele” e separados uns dos outros. O egoísmo suplantou o sentimento de fraternidade, atingindo o nadir do materialismo. Alguns foram mais passionais que outros. Por isso, seus corpos cristalizaram-se mais. Eles degeneraram e tornaram-se antropóides. Seu tamanho foi reduzido à medida que se aproximavam do limite onde a espécie devia ser extinta. Eles são, portanto, os pupilos especiais dos Espíritos lucíferos. Assim, o mito de Fausto mostra-nos uma fase da evolução humana não incluída na lenda Maçônica, e dá-nos uma visão mais completa e conjunta do que realmente aconteceu.

Houve uma época em que toda a humanidade passou pelo ponto onde os cientistas acreditam estar localizado o elo perdido. Os que agora são antropóides degeneraram a partir daquele ponto, enquanto a família humana evoluiu até o presente estágio de desenvolvimento. Sabemos como a indulgência para com as paixões embrutece aqueles que por elas se deixam levar. Podemos compreender prontamente que quando o homem estava ainda em formação, sem individualidade e sob controle direto das forças cósmicas, esta indulgência não era controlada pelo sentimento da individualidade que, de certo modo, nos protege hoje. Portanto, os resultados seriam naturalmente mais desastrosos e de maiores conseqüências.

Alguma vez, a alma aspirante deve entrar na cozinha das bruxas como o fez Fausto, e encarar o objetivo da lição que nos leva a considerar a conseqüência do mal, representada pelo macaco. A alma tem, então, permissão para encontrar-se com Margarida no jardim, para tentar e ser tentada, para escolher entre a pureza e a paixão, para cair como Fausto, ou permanecer firmemente na pureza, como fez Parsifal. Sob a Lei da Compensação receberá sua recompensa pelas ações praticadas no corpo. De fato, a sorte é irmã gêmea do merecimento, como Lúcifer mostra a Fausto, e a verdadeira sabedoria só se conquista com paciente perseverança na prática do bem.

“Quão ligada está a sorte ao merecimento,

Isso ao tolo jamais ocorreria.

Eu juro, tivesse ele a pedra do homem sábio,

A pedra do filósofo não seria”.

Fiel a seu propósito de estudar a vida em vez de livros, Fausto pede a Lúcifer que consiga introduzi-lo na casa da Margarida. Tenta conquistar a afeição dela com um principesco presente de jóias, que Lúcifer introduziu às escondidas em seu armário. O irmão de Margarida está ausente, lutando por sua pátria. Sua mãe não é capaz de decidir o que fazer com o presente, e o leva ao seu guia espiritual na igreja. Este aprecia mais o brilho das gemas do que as preciosas almas a ele confiadas. Negligencia seu dever à vista de um colar de pérolas, mais ansioso em garantir as jóias para o adorno de um ídolo, do que defender uma filha da igreja contra o perigo moral que a cerca. Assim, Lúcifer vence e rapidamente recebe uma recompensa de sangue e, em seguida, de almas humanas. Para conseguir acesso aos aposentos de Margarida, Fausto a persuade a dar à sua mãe uma poção para dormir, o que causa a esta, a morte. Valentino, o irmão de Margarida, é morto por Fausto. Margarida é encarcerada e sentenciada a sofrer pena capital.

Quando uma semente adere à polpa de uma fruta ainda verde, é doloroso retirá-la de lá. Da mesma forma, o sangue, que é o assento da alma, está no corpo de uma pessoa e, quando esta encontra um fim súbito e prematuro, é fácil perceber o sofrimento de tal morte. Os Espíritos de Lúcifer deleitam-se com a intensidade do sentimento e evoluem através disso. Em relação ao objetivo, a natureza de uma emoção não é tão essencial quanto sua intensidade. Por isso, eles agitam as paixões humanas de natureza inferior, que são mais intensas em nosso presente estágio de evolução do que os sentimentos de alegria e amor. Como resultado, incitam à guerra e ao derramamento de sangue, e o que nos parece maligno agora, na realidade, são degraus para ideais mais nobres e elevados, pois, através da tristeza e do sofrimento, tais como foram gerados em Margarida, o Ego eleva-se cada vez mais na escala da evolução. Aprende o valor da virtude quando desliza na direção do vício.

Foi com verdadeira compreensão deste fato que Goethe escreveu:

“Quem nunca comeu seu pão em amargo afã,

Quem nunca, acordado, a meia-noite viu passar,

Chorando, esperando pelo amanhã,

Os Poderes celestiais não sabe ainda avaliar”.

Capítulo VI

O Preço do Pecado e os Caminhos da Salvação

“O preço do pecado é a morte”, diz a Bíblia e quando semeamos para a carne, por certo colheremos corrupção. Também não devemos ficar surpresos quando alguém de caráter negativo, como os Filhos de Seth representados por Margarida no mito de Fausto, torna-se vítima desta lei da Natureza, logo após ter cometido o pecado. A rápida prisão de Margarida pelo crime de matricídio é uma ilustração de como funciona a lei. O sagrado horror da igreja, que foi omissa não a protegendo enquanto ainda havia tempo, é um exemplo de como a sociedade procura encobrir sua negligência e ergue suas mãos chocada pelos crimes pelos quais, em grande parte, é a própria responsável.

Se o padre, em vez de cobiçar as jóias, tivesse ficado atento à confidência de Margarida, poderia tê-la ajudado em tão dura sina, e, embora ela pudesse ter sofrido por perder seu amado, teria conservado sua pureza. Contudo, é pela intensidade da dor que a alma sofredora encontra seu caminho de volta à fonte de seu ser, pois nós todos, como filhos pródigos, deixamos nosso Pai no Céu, afastamo-nos dos reinos do espírito e alimentamo-nos das escórias da matéria para adquirir experiência e ganhar individualidade.

Quando estamos no abismo do desespero, começamos a compreender nossa alta linhagem e exclamamos: “Vou erguer-me e ir ao encontro de meu Pai”. Ser membro de uma igreja, ou estudar o misticismo do ponto de vista intelectual, não trazem a compreensão do até onde, que é necessário para podermos seguir o Caminho. Porém, quando estamos despojados de todo apoio mundano, quando estamos doentes ou na prisão, encontramo-nos mais próximos e somos mais queridos do Salvador do que em qualquer outro momento. Portanto, Margarida na prisão, proscrita pela sociedade, está mais próxima de Deus do que aquela inocente, bela e pura Margarida, que tinha o mundo diante de si quando encontrou Fausto no jardim.

O Cristo não tem mensagem para aqueles que estão satisfeitos e amam o mundo e seus costumes. Enquanto estiverem com essa mentalidade, Ele não lhes pode falar, nem eles podem ouvir Sua voz. Mas há uma infinita ternura nas palavras do Salvador: “Vinde a mim todos vós que labutais e estais oprimidos e eu vos darei descanso”. A alma pecadora simbolizada por Margarida em sua cela na prisão, solitária, banida da sociedade como uma leprosa moral e social, é compelida a elevar seus olhos aos céus e suas preces não são em vão. Contudo, até o último momento, as tentações perseguem a alma que procura. As portas do céu e do inferno estão igualmente próximas à cela da prisão de Margarida, como vemos pela visita de Fausto e Lúcifer, que tentam arrastá-la da prisão e da morte iminente para uma vida de vergonha e servidão. Mas ela mantém-se firme. Prefere a prisão e a morte à vida e liberdade na companhia de Lúcifer. Dessa maneira resistiu à prova e qualificou-se para o Reino de Deus.

Salomão era servo de Jeová e como Filho de Seth estava ligado ao Deus que o criou e a seus ancestrais. Mas, numa vida posterior, como Jesus, ele deixou seu Primeiro Mestre no Batismo, e depois recebeu o Espírito do Cristo. Assim, todos os Filhos de Seth devem, algum dia, deixar seus protetores e escolher Cristo, sem se importarem com o sacrifício conseqüente, ainda que o preço seja a própria vida.

Margarida em sua cela da prisão toma essa importante decisão e qualifica-se para a cidadania no Novo Céu e na Nova Terra, pela fé em Cristo. Por outro lado, Fausto permanece com o Espírito de Lúcifer por um tempo considerável. Ele possui agora um caráter mais Positivo, é um verdadeiro Filho de Caim e, embora o preço do Pecado possa eventualmente levá-lo à morte, a salvação pode vir através de uma concepção mais pura do amor, e através de obras.

Na segunda parte de Fausto, encontramos o herói com o espírito alquebrado pela desgraça que, por sua causa, caiu sobre Margarida. Percebe sua culpa e começa a galgar o caminho da redenção. Usa o Espírito de Lúcifer, ligado a ele pelo pacto de sangue, como um meio de atingir sua finalidade. Torna-se um fator importante nos assuntos de estado do país por onde viaja, pois todos os Filhos de Caim deleitam-se com a arte de governar, assim como os Filhos de Seth gostam da política clerical.

Fausto, contudo, não satisfeito em servir outros sob as condições existentes, invoca as forças diabólicas sob seu comando para criar uma região, emergi-la do mar e fazer uma Nova Terra. Ele sonha uma utopia, pretendendo que este lugar livre seja o lar de um povo livre que a habitará em paz e alegria, vivendo à altura dos mais elevados ideais da vida.

Estes ideais são originados em sua alma pelo amor de uma personagem chamada Helena, um amor da mais sublime e espiritual natureza, inteiramente separado do pensamento de sexo e paixão. Com o decorrer do tempo, ele vê esta terra elevar-se do mar, mas seus olhos estão ficando cegos, pois está substituindo sua contemplação de uma condição terrestre para uma celestial. Enquanto fica assim contemplando as forças dirigidas por Lúcifer, labutando em seu comando dia e noite, Fausto compreende que tornou real a predição de Lúcifer para ser:

“A força que mesmo o mal planejando,

Para o bem está trabalhando”.

Ele percebe que seu trabalho com as forças inferiores está chegando ao término e que sua visão está diminuindo. Mas, com o desejo veemente que se apodera da sua alma para ver o fruto de suas obras, ele quer reter a visão até que tudo esteja completado e seu sonho utópico convertido em realidade. Porém, como a visão que tem diante de si – a terra surgindo do mar e o feliz povo que nela vive em fraternidade – se desvanece sob seus olhos quase cegos, ele profere as palavras fatídicas que disse quando de seu pacto como Lúcifer:

“Sempre que a hora for passando Eu digo: ‘Oh! fica! és tão leal’,

Assim, a força a ti eu vou dando

De levar-me ao mais profundo desespero.

Meu dobrar de sinos não o deixes prolongar,

De meu serviço, livre irás ficar;

E quando do relógio o ponteiro indicador tiver caído,

Esteja, então, o meu tempo concluído”.

Pelos termos desse pacto, quando Fausto proferiu as palavras fatídicas, as forças do inferno soltaram-se da escravidão e foram para ele que, por sua vez, tornou-se vítima delas. Pelo menos assim parecia ser. Mas Fausto não desejou deter a marcha do tempo com o objetivo de desfrutar os prazeres sensuais, nem de satisfazer desejos egoístas, como foi projetado no pacto. Para a realização de um ideal altruístico e nobre, ele desejou deter a hora que passava. Por conseguinte, está realmente livre de Lúcifer, e uma batalha entre as forças angélicas e as hostes lucíferas termina finalmente com o triunfo das primeiras, que conduzem a alma que procura para o porto do descanso no reino de Cristo, enquanto proferem as seguintes palavras:

“A nobre alma está salva do mal,

Nosso espírito ressurge. Todo aquele

Que se esforça para adiante, com desejo de mudar,

Nós podemos libertá-lo.

E, se nele, o amor celestial tomou lugar,

Para encontrá-lo desçam os anjos do céu

Com afeto cordial, eles o vão saudar”.

Assim, o Fausto do mito é uma personalidade inteiramente diferente do Fausto do palco; e o drama que começa no céu, onde foi dada permissão a Lúcifer para tentá-lo, como Job foi tentado na antiguidade, também acaba no céu quando a tentação foi vencida e a alma voltou para seu Pai.

Goethe, o grande místico, finaliza apropriadamente sua versão com o mais místico de todos os versos encontrados em qualquer literatura:

Tudo que é perecível,

É somente uma ilusão.

O inatingível,

É aqui consumação.

O indescritível,

Aqui ele é ação.

O Eterno Feminino,

É para nós uma atração”.

Esta estrofe confunde todos os que não são capazes de penetrar nos reinos onde ela é cantada, isto é, no céu.

Nela se diz que “tudo que é perecível é somente uma ilusão”. Quer dizer, as formas materiais que estão sujeitas à morte e à transmutação são apenas uma ilusão do arquétipo visto no céu. “O inatingível é aqui consumação” – o que pareceu impossível na Terra é consumado no céu. Ninguém sabe disso melhor do que quem é capaz de agir nesse reino, pois aí toda aspiração elevada e sublime encontra satisfação. As indescritíveis aspirações, idéias e experiências da alma, que nem ela pode expressar para si própria, são claramente definidas no céu. O Eterno Feminino, a Grande Força Criadora na Natureza, a Mãe-Deus que nos conduz pelo caminho da evolução, torna-se lá uma realidade. Assim, o mito de Fausto conta a história do Templo do Mundo, que as duas classes de pessoas estão construindo e que serão, finalmente, o Novo Céu e a Nova Terra profetizados no Livro dos Livros.

25/03/2019

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