Reflexões sobre a Fé

Filosofia | 25/03/2019

“Não pôde fazer ali milagre algum.

Curou apenas alguns poucos

enfermos, impondo-lhes as mãos.

Admirava-se ele da desconfiança deles”.

(Mateus 13:58)

A admiração do Mestre frente à desconfiança daquelas pessoas revela os motivos pelos quais as curas milagrosas não puderam ali se manifestar. De fato, a promoção da dúvida como método para busca da verdade constitui uma clássica contradição pragmática do pensamento. Afinal, a premissa da dúvida como método, supõe duvidar de todas as coisas, exceto da própria dúvida! Neste caso, é preciso ter fé na dúvida para que se possa duvidar de todas as coisas.

O resgate do conceito inicial da palavra Filosofia poderá indicar uma solução para este problema. Filosofia significa Amor à Sabedoria. Pensar com amor é, em Verdade, o princípio de qualquer ciência. Sabe-se que para alguém filosofar necessitará conseguir pensar sem dúvidas em seu coração. É com a intuição que se pode alcançar este estado filosofante que, necessariamente “perceberá” a alma ou o interior das coisas investigadas. Por outro lado, o conhecimento racional quando trilha o método da dúvida, não possibilita a percepção essencial das coisas, mas permite que o investigador “conclua”a partir da percepção dos aspectos exteriores dos fenômenos.

Atualmente, o método da dúvida ou da busca de provas é levado tão a sério que as ciências atuais têm como prioridade o próprio método de investigação e como coadjuvante os fenômenos reais observados e constatados. Assim, mesmo que um fenômeno se apresente claramente para um observador, se ele puder ser explicado pelo aglomerado de regras científicas, o pesquisador poderá concluir que o fenômeno visto é como uma possível inverdade. O remate produzido pela razão duvidosa será alcançado pela aplicação rigorosa de um sistema de regras mecânicas que buscará o falseamento de tudo. A premissa é que tudo aquilo que for verdade, necessariamente sobreviverá à sindicância de falseamento aplicada. Por exemplo, algumas pessoas antigas costumavam dizer que jejum intermitente é um excelente remédio para ajudar no tratamento do diabetes. Quando o autor deste texto mencionou essa informação para alguns colegas cientistas, foi motivo de chacota e de risos. Entretanto, o autor, posteriormente, encontrou o estudo de Brown e colaboradores (2013) “Belief beyond the evidence: using the propose deffect of breakfast on obesity to show 2 practices that distors cientific evidence” e o estudo de Horne e colaboradores (2012) “Relation of routine, periodic fasting to risk of  Diabetes Mellitus, and Conorary Artery Disease in patients under going conorary angiography” que comprova a sabedoria intuitiva dos antigos sobre o jejum.

A intuição, por outro lado, não é uma ação mecânica ou técnica. Ela demanda fundamentalmente a confiança. Este estado de confiança deixará a consciência livre de dúvidas. A intuição conduzirá a consciência para o interior das coisas, onde o Espírito habita. A dúvida, por outro lado, necessariamente jogará a consciência para a exterioridade das coisas, onde o não ser habita. Duvidar é, na verdade, o suicídio do intelecto e também a impossibilidade de manifestação espiritual de qualquer natureza. A confiança torna vivo aquilo que a consciência investiga e supera as operações mecânicas da razão duvidosa. A confiança também possibilita a cooperação do individuo com algo para além dele mesmo. Essa é a razão da constante fala do Mestre: “a sua fé te curou”. Em contrapartida, a dúvida encerra todas as vias de relações possíveis, limitando o indivíduo em si mesmo e, portanto, a permanecer doente.

O advento do racionalismo, desde a idade moderna, tinha como promessa libertar o ser humano dos mistérios obscuros da natureza. O meio para se conseguir isso era a promoção do intelecto e do método científico. Infelizmente, esta busca teve como efeito colateral a tendência em se reduzir à consciência humana ao seu próprio intelecto, como se a razão fosse o alfa e o ômega de sua consciência. É importante saber que o intelecto é nada mais do que um instrumento importante da Consciência, mas a Consciência é muito mais complexa e possui outras ferramentas e vias para também se poder chegar à Sabedoria.

O exame das premissas filosóficas de dois filósofos que possuem pensamentos antagônicos pode nos auxiliar na reflexão sobre o que é fé e seus desdobramentos e sobre o que é a dúvida como busca da verdade. São eles: René Descartes e Santo Agostinho. Iniciaremos com o filósofo moderno René Descartes. Este filósofo inaugurou um método de investigação conhecido como o método cartesiano. Por meio de um ceticismo metodológico, ele colocou em dúvida todas as coisas e afirmou que somente aquilo que resistisse ao método da dúvida, portanto provado, seria considerado como verdade. A descrença de Descartes foi tamanha que ele chegou a propor um experimento mental (simulador) que incluía a existência de Deus enganador ou gênio maligno. Neste experimento, você é convidado a imaginar que este gênio maligno te faz acreditar, por exemplo, que todas as operações matemáticas são verdadeiras, pois apresentam resultados constantes e reproduzíveis. Mas talvez o gênio maligno estivesse criando uma ilusão de constância desses dados, levando a consciência do observador para uma ilusão ou mentira. Assim, a única maneira de não se iludir com a ideia de conhecimento seguro seria duvidar de tudo.

Entretanto, algo resistiu fortemente ao método da dúvida: o próprio EU! Afinal, se o eu foi capaz de duvidar da própria ilusão, e, refletir sobre isto, é indubitável que o eu exista. Foi desta conclusãoque Descartes pronunciou a famosa frase: “Penso, logo existo” (cogito ergo sum).

Alguns problemas surgem a partir da conclusão cartesiana sobre a existência do EU. Quando o EU consciente consegue constatar logicamente a sua própria existência, ele automaticamente constata que não conseguirá provar mais nada para além de si mesmo. Pois o mundo exterior, o cosmos, etc., continua sob a sindicância da dúvida e operada ou manipulada pelo gênio maligno. A busca por mais verdade fica totalmente presa nessa única verdade, pois não se pode constatar a veracidade de nada mais. Esse é o principal problema da lógica cartesiana: a dúvida aniquilou tudo aquilo que é externo ao eu, fechando o eu em si mesmo.

A dúvida é, portanto, o princípio do enrolamento de si em si mesmo, o ouroboros. Aqui a contradição pragmática já deveria desconstruir a ideia de Descartes. E ele mesmo o faz, parcialmente: para o ego dar um passo sequer para fora da jaula do si mesmo como única verdade, ele deverá admitir minimamente que a premissa plena da dúvida não é aplicável à realidade. Essa premissa pode até ser aplicável em nível de ideias abstratas, retóricas, simuladoras e não reais. Por isso, Descartes se viu obrigado a apelar para algum grau de fé ou de certeza de que as coisas para fora de si podem ser verdade, pois sem essa confiança, nenhum processo de busca da verdade para fora de si mesmo ou tendo o si mesmo como base, poderia ocorrer. Assim, para se buscar a relação entre o ego e as coisas exteriores, Descartes teve de admitir a existência de um Deus externo como criador das coisas externas ao ego.

O ego Agostiniano, por sua vez, é diferente ou o oposto do ego cartesiano. Para Santo Agostinho, a certeza da existência do próprio ego éuma constatação clara e, ao mesmo tempo, incompleta e imperfeita. Em Descartes, o ego pensante é autossuficiente e também a certeza inicial para o estabelecimento de todo conhecimento do mundo. Para Agostinho, o ego sabe-se existência real, mas desconhece sobre “de qual substância” este ego é feito, nem se sabe o porquê este de sua existência (sua natureza e essência). Em outras palavras, a certeza de que se é, traz a noção de que nada mais se sabe para além disso.

É interessante perceber que a dúvida do ego cartesiano de Descartes produziua autossuficiência do ego, enquanto a certeza do ego de Agostinho constatou o mistério e a insuficiência. O ego de Descartes inaugura para a modernidade o subjetivismo, que em sua filosofia e ciência, será o ponto de partida para a compreensão de todo o cosmos por pura dedução. Já para Santo Agostinho, quando o ego percebe sua existência, também percebe que possui uma parte de si mesmo desconhecida e misteriosa. Poderá, pois, dizer: “sou mais do que aquilo que posso saber que sou”. Assim, ele apela para Deus como sendo esta parte interna misteriosa do ego. Esse apelo é totalmente contrário ao apelo de Descartes a Deus, pois este último faz um apelo a Deus como sendo um Ser exterior ao próprio ego. Santo Agostinho apela para Deus como sendo Dentro do Ego. Por isso ele proclama: “Deus é Aquele que em mim, que é mais eu do que eu mesmo”. É a verdadeira consistência e verdadeira natureza da Alma (anima naturaliter christiana). Assim, em lugar da subjetividade, Agostinho buscou a transubjetividade.

A parte do ego que constata sua existência, para Santo Agostinho, é a parte empírica ou transitória. A constatação da incompletude que remete a uma parte misteriosa do ego seria o aspecto perene ou eterno do Ser. Ele defende que algumas faculdades próprias do ser humano, constituem “a prova” desta verdade perene. Por exemplo, a capacidade que o ser humano tem de representar a realidade e sua existência temporal, lhe confere a faculdade de ver-se distante do fluxo temporal e da realidade transitória nos quais o ego está inserido. Essa distância mental ou metacognitiva (termo não usado por Santo Agostinho) permite ao ser humano estar dentro do fluxo temporal, mas, ao mesmo tempo, colocar-se acima do fluxo e da realidade temporal, como um expectador que pode constatar as mudanças e transformações do devir, mantendo seu senso de identidade perene, a despeito das transformações condicionadas pela realidade temporal.  Essa “permanência”de identidade que pode se ver acima do fluxo temporal, para Agostinho, seria a prova da eternidade do ego, pois essa capacidade não é proveniente do eu transitório que está no fluxo, mas sim da parte perene do Ser que está fora do fluxo temporal.

Voltemos agora para a questão inicial sobre a fé e a dúvida. A compreensão espiritual que depende da fé, também engloba o saber científico. No entanto, para se alcançar a fé e despertar a intuição, será preciso buscar a emancipação da influência hipnotizante da totalidade dos fatos empíricos e científicos, rompendo com o efeito totalizador de se perceber o mundo apenas pelo seu exterior. Será preciso saber pensar não com a dúvida, que gera a morte da filosofia e do intelecto, mas com a certeza (pistis). Utilizar as conclusões do pensamento é, sem sombra de dúvida, muito importante para a busca da Verdade, mas deve-se aprender a superá-las pela revelação de uma instância superior que tem por base a confiança ou fé. Se isso não ocorrer, o produto da consciência continuará a produzir apenas matéria estéril e morta.

Como primeiro passo prático para despertar a intuição será preciso aceitar o estado de dúvida sobre qualquer assunto. Aprender que não existe nenhuma ideia que não possa ser contestada. Entretanto, para se realizar o aceite do estado de dúvida, é preciso encontrar um CENTRO que tenha por si mesmo a estabilidade que o intelecto que duvida não poderá ter. Esse ponto fixo de estabilidade é de natureza emocional e deve ser independente das coisas que se duvida ou das crenças que se tem sobre as coisas. Por isso quem possui um centro emocional firme e estável poderá mudar de opinião um milhão de vezes por dia, sem sequer se desarmonizar com isso.

Quando se consegue esse equilíbrio emocional central, pode-se alcançar concomitantemente o estado intelectual de dúvida. Se, por outro lado, o indivíduo tiver como centro do seu ser, o seu estado intelectual da dúvida, ele não poderá sequer dar um passo sequer em direção a verdade, pois o princípio da dúvida é a divisão. Ela coloca um fenômeno sob uma falsa luz que obedece a quadros contrários a visão do espírito. Ela reduz o poder do espírito à impotência da indecisão. A dúvida é para a fé o mesmo que o astigmatismo é para a visão. Ela surge quando o olho superior fica dessincronizado com o olho inferior. A dúvida sempre é considerada um animal de dois chifres, pois sempre bifurcará.

A dúvida possui três etapas bem definidas que distanciam a consciência de uma cooperação com o Divino. Inicialmente, bloqueia-se a certeza pela premissa de que a certeza pode levar a falsa percepção de verdade. Na história de Adão e Eva, esse bloqueio é representado pela voz da serpente que Eva, pela primeira vez escuta. Uma segunda voz, além da voz de Deus, e, portanto, inicia-se a bifurcação (dois chifres ou a língua bífida). Em seguida, realiza-se a comparação das premissas e, com isso, se fortalece a opinião própria, a palavra própria e o movimento próprio. Apesar dos benefícios da autonomia que isso gera, origina-se aqui, o pecado capital dos capitais, que é o orgulho, o eu em detrimento do todo. A busca deve ser do Eu individualizado, fortalecido e autônomo, mas sempre em colaboração com Deus e com todos (Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo). A fé, por outro lado, não propõe a morte da ação, da opinião e da palavra, mas todas direcionadas aos propósitos dos céus. Esta etapa de comparação das vozes, é representada na história de Eva, como a parte em que ela considera comer o fruto proibido. Se ela comesse, se tornaria como os Deuses, conhecedora do bem e do mal. Por fim, pela dúvida, decide-se um caminho emancipado e próprio, desconectado do espírito. É quando Eva decide comer e dar o fruto a seu marido.

No século passado, quando se constatou que o racionalismo não foi capaz de responder as indagações humanas, o subjetivismo já pavimentado pela modernidade foi elevado ao extremo, inaugurando o que se conhece por pós-modernidade ou mundo líquido, em que a infantilização da mente humana é sua principal decorrência. É sabido por qualquer cabeça que verdadeiramente sabe pensar que tomar as percepções arbitrárias e subjetivas como fonte de sabedoria é o mesmo que destruir qualquer noção de verdade.

É claro que o racionalismo e o subjetivismo humano tiraram proveito das circunstâncias extenuantes causadas pelo pensamento religioso e suas injustiças promovidas ao longo do século. Por isso, confundiu-se o desejo de se libertar das amarras dogmáticas, opressoras e desumanas que o mau uso da religião promoveu ao longo dos séculos, acreditando que o racionalismo e a ciência poderiam desbancar a religião com seus dogmas e abuso do poder. Esse tipo de abuso e excesso é parte da natureza decaída do homem e não podem ser vistos como oriundos da Verdadeira Religião, que é movida pela Fé. De fato, muitos crimes foram cometidos em nome de Deus ou do Espírito Santo, por isso não é menos ilógico compreender que o ideal de racionalismo seria uma maneira de libertar a humanidade de injustiças pela promoção da razão emancipadora. Nota-se, portanto, o mecanismo psicológico das massas em aderir a uma nova forma de conhecimento como via de “salvação” e escape dessas injustiças feitas pela natureza abusiva do ser humano e não da religião.

Para o fechamento desta pequena e limitada reflexão, retomamos o título do texto: “Penso logo existo” ou “Sou, logo existo”. Sempre que utilizamos o intelecto como sendo o alfa e ômega do pensamento e da consciência, necessariamente produziremos a ilusão da autossuficiência e o enrolamento de si, consigo mesmo.  Por outro lado, quando se aprende que o intelecto é apenas uma ferramenta do Espírito que auxilia nos reflexos que geram a consciência e que, se operado juntamente com a intuição e a imaginação, por exemplo, aprende-se a verdadeiramente a pensar de modo cooperativo com algo maior do que nós mesmos. Essa cooperação é a prova da Fé que cura e que sua falta fez o Mestre se surpreender e não conseguir operar os milagres que podia realizar. Para Deus se manifestar em sua vida e te curar, é preciso saber cooperar com ele, e o modo para isso é a fé ou a certeza. Somente aqui seremos e, portanto, verdadeiramente, existiremos.

Que as rosas floresçam em vossa cruz!

25/03/2019

0 respostas em "Reflexões sobre a Fé"

Deixe sua mensagem

Copyright © 2018 Fraternidade Rosacruz - Sede Central do Brasil. Todos os Direitos Reservados.

X