O Poder e o Perigo da Dúvida

Filosofia | 12/06/2019
A partir da análise do filme: A Dúvida (Dir. John Patrick Shanley) esperamos fomentar a reflexão sobre este tema tão fundamental.
“O Vento sopra onde quer, e ouve a sua voz, mas não sabe de onde vem nem para onde vai; Assim ocorre com todos os nascidos do Espirito”

No filme o vento é quase um personagem, ele toma a todos como que por surpresa tenta derrubar as árvores e sujar as calçadas. As crianças não se importam com ele, enquanto os velhos  fecham as venezianas para que não entre com seu movimento descontrolado. Para a freira Aloysius (Merryl Streep), o vento é peripatético, extravagante e exagerado, comportamento que ela repudia, preferindo a vida resguardada por terrenos seguros de crenças petrificadas, mesmo que ali o solo aparente firme esconda uma inevitável aridez e infertilidade e fragilidade.

O filme é baseado em uma peça de teatro, portanto privilegia os diálogos, mas a direção é magnifica e bastante detalhada para expectadores atentos. A história se passa em uma comunidade católica, bastante conservadora, mais precisamente em escola conjugada com uma Igreja.

O rigor da arquitetura e a alegria das crianças se contrapõem, da mesma forma que as freiras Aloysius  e James (Amy Adams). A  primeira dona de um rigor intenso e uma personalidade manipuladora-controladora, a outra dotada de misericórdia abandonada a si mesma. Evidentemente as duas irmãs poderiam compor uma opereta harmônica e alcançar uma convivência próspera, no entanto a presença de um padre frustra esta possibilidade.

A questão central do filme é o que a dúvida é capaz de fazer. Ou seja, a dúvida e a certeza possuem a mesma capacidade de dar suporte ao homem. Cada uma delas pode permear nossa existência, porém a certeza nasce da Fé e do Amor enquanto  a dúvida brota do desconforto e da constatação de que fomos expulsos do paraíso.

“O Que fazer quando não se pode contar com a  certeza?”

 

O primeiro sermão de Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) é sobre o sentimento de desorientação, desespero que nos acomete quando somos defrontados por uma calamidade pessoal, quando somos arrancados de um “suposto paraíso”. Padre Flynn sabe das coisas, provavelmente já foi arremessado para longe de sua fé, e com a ajuda de Deus pôde retornar (ou não?).

Mas a intenção deste sermão, sem dúvida, era oferecer sua mão cuidadosa  para quem estivesse vivendo este pedaço de inferno na terra, o primeiro a aceitar a oferta foi o coroinha Donald Miller (Joseph Foster),  primeiro aluno negro da escola St. Nicholas, vítima da violência do pai alcoólatra, o menino percebe no Padre Flynn um homem que vale a pena confiar e na igreja um lugar que desejaria estar para o resto de sua vida.
Irmã Aloysius também é tomada pelo sermão, mas de maneira distinta: sente-se desconfortável e irritada, dali leva consigo uma semente de discórdia, que vai semear como a própria serpente fez à Adão e Eva. Será extremamente astuta, e tudo que observar de sua janela, suporá o pior sobre o Padre Flynn, e julgará serem verdadeiras suas interpretações, e fará o famoso jogo de “leva e trás”.

As intenções dela sempre puritanas e tendentes a conservação dos valores cristãos e tradicionais e poderiam parecer legítimas não fossem permeadas de astúcia e malícia. Mentindo, enganando, aumentando, acaba por produzir uma secreção venenosa que contamina a todos (inclusive aos expectadores).

É notável a complexa relação que a irmã Irmã Aloysius tem com a verdade. Ela vive sob a égide de arcabouço moral autocriado para poder viver em um mundo espiritual inexistente, fantasioso. O rigor esconde uma fragilidade insuportável, e o seu pequeno inferno é perene, por conta disto ela se permite a ultrapassar todos os limites para que os muros de suas crenças não sejam derrubados. A intenção deliberada de pronunciar o mal foi alimentada pela fraqueza de caráter.

O Filme nos faz refletir sobre a famosa frase de Max Heindel:

“A Mentira é ao mesmo tempo suicida e assassina, e nos leva a crer que a ela é filha da dúvida.”

 

Podemos finalizar lembrando que este filme traz uma bela reflexão sobre  O Signo de Gêmeos e seu planeta regente Mercúrio, que dão potência ao Verbo, e nos permitem expressar o Belo e o Feio, o Verdadeiro e o Falso o Bom e o Maldoso.

0 responses on "O Poder e o Perigo da Dúvida"

Leave a Message

Copyright © 2018 Fraternidade Rosacruz - Sede Central do Brasil. Todos os Direitos Reservados.

X